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Aproveite o minuto que passa, ele não mais voltará

No ano de 1040 da era cristã nasceu um indivíduo na Pérsia (atual Irã), mais precisamente em Nichapour, que recebeu o nome de Omar Ibn Ibrahim El Kháyyám.

Em persa, Kháyyám significa “fabricante de tendas” e a adoção desse nome foi em memória do seu pai, que exercia aquele ofício.

Omar Kháyyán, como é conhecido, além de grande poeta, foi um importante matemático e astrônomo. Sobre ciências escreveu os livros Tratado de algumas dificuldades das definições de Euclides e as Demonstrações dos problemas da álgebra.

Em 1074, quando era diretor do observatório de Merv, fez a reforma do calendário muçulmano. Mas o que mais o tornou conhecido foi o seu livro Rubáiyát, com traduções em várias línguas, das quais tenho a 16a. edição em português, da Livraria José Olympio Editora, de 1983. No entanto, a tradução foi feita em 1928. Rubáiyát é o plural da palavra persa Rubai e significa “quartetos”.

É muito interessante e agradável a leitura da poesia em forma de quartetos de Omar Kháyyám. Conforme prefacia o tradutor Octávio Tarquínio de Souza, viver a vida para o autor significava apenas usufruir do presente. O passado não interessava e o futuro era incerto. Apenas o momento que estava vivendo merecia alguma preocupação, mas sobretudo saber aproveitar ao máximo. Daí a sua máxima “Aproveite o minuto que passa pois ele não mais voltará”.

E nos versos Kháyyán constantemente referia-se às mulheres e ao vinho. Parece que “ele amou o vinho acima de todas as coisas, porque no vinho encontrou um meio de fugir à realidade trágica da vida”, segundo o tradutor.

Ele era um grande sábio. E sobre ser feliz, escreveu: “Procura ser feliz ainda hoje, pois não sabes o que te reserva o dia de amanhã. Toma uma urna cheia de vinho, senta-te ao clarão do luar e monologa: Talvez amanhã a lua me procure em vão.”

Mas, em sendo um sábio, cultivava a humildade, como sói acontecer com as grandes pessoas: “Que a tua sabedoria não seja uma humilhação para o teu próximo. Guarda domínio sobre ti mesmo e nunca te abandones à cólera. Se aspiras à paz definitiva, sorri ao destino que te fere; não firas ninguém.”

Sobre amigos, ele também se manifestou. “Contenta-te com poucos amigos. Não busques prolongar a simpatia que alguém te inspirou. Antes de apertares a mão de um homem, considera se ela um dia não se erguerá contra ti.”

Não deixou de falar também sobre o livro supremo dos muçulmanos, relacionando com o seu gosto maior, que era tomar vinho: “O Corão, chamado o Livro supremo, pode ser lido de vez em quando; mas ninguém se deleita na sua leitura, sempre que o lê. Na taça cheia de vinho está gravado um texto, de tão adorável sabedoria, que a boca, à falta dos olhos, lê sempre com delícia.”

E sobre vinho inúmeros são os quartetos. Aqui ele faz alusão à sua amada e ao precioso líquido: “Deixemo-nos de palavras vãs. Levanta-te e dá-me um pouco de vinho. Esta noite tua boca é a mais bela rosa do mundo e basta para todos os meus desejos. Dá-me vinho. Que ele seja corado como as tuas faces, e o meu remorso será leve como as tuas tranças.”

Sobre religião nitidamente pode-se observar que Kháyyán não era um grande praticante: “Perderei ainda muito tempo querendo encher o mar com pedras? Desprezo igualmente os libertinos e os devotos. Kháyyán, quem te poderá assegurar que irás para o Céu ou para o Inferno? Que significam essas duas palavras?... Conheces alguém que já tenha visitado esses países misteriosos?”

Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde) recebeu o livro traduzido de seu amigo Octávio e lhe enviou uma carta datada de 30 de julho de 1928, que foi colocada no livro como posfácio. Nela, parabenizou o tradutor pelo seu trabalho mas discordou da essência do pensamento de Kháyyán. Como católico que era, colocou e defendeu o seu ponto de vista.

Enfim, ler e falar sobre Kháyyán é agradável. Praticar a sua filosofia de vida é outra coisa. Viver intensamente o presente é muito bom e necessário, mas esquecer do amanhã pode trazer sérios problemas a qualquer pessoa e também aos que com ela convivem e/ou dela dependem. E o passado, interessa sim, pois é a partir dele que se pode colher os frutos no presente e no futuro.

Prof. Dr. Rosires Pereira de Andrade
Prof. Titular de Reprodução Humana da UFPR
Diretor do CERHFAC - Centro de Estudos e Pesquisas em Reprodução Humana e Fertilização Assistida de Curitiba

 
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